E vieram os bélgicos
Aí vai um post que ficou guardado, esperando este blog ser lançado. O chato é que as olimpíadas de Pequim acabaram e o assunto ficou com cara de velho.
O caso é que no Bronze Brasil 2008, que, diga-se de passagem, teve a melhor cobertura dessas olimpíadas, fez-se o seguinte comentário após a derrota da seleção brasileira de futebol na semifinal contra a Argentina.
Como disse Walter Casagrande na copa de 2002: “que venham os bélgicos”.
É interessante notar que ninguém sabe ao certo - mas todo mundo acha que sabe - quem disse isso pela primeira vez. Nos comentários ao post, teve gente negando que tenha sido Walter Casagrande e gente garantindo que a frase foi criação de Roberto Rivellino. Já em outro site, no texto "Puta Trampo - O Manifesto", César Albiero atribui a frase a Dadá Maravilha e ensaia uma explicação baseada no que ele chama de "filosofia do Puta Trampo".
Pq serah q ele falou bélgicos? Pq eh puta trampo conhecer todas as nacionalidades, nao eh msm? Portanto, depois dos bélgicos vieram os turqueses, os alemanhos e assim foi...
Não deixa de ser um jeito de explicar o que aconteceu: no desconhecimento do gentílico adequado, a morfologia da língua entra em ação e gera uma alternativa. Uma explicação mais séria teria que levar em conta o fato de que esse tipo de "erro" ocorre mesmo quando o falante tem conhecimento de qual é a palavra comumente utilizada no contexto em questão.
Acontece que o acesso aos itens de nosso léxico mental não é cem por cento confiável em todos os momentos. Quando ele não ocorre como esperado, isto é, quando um item lexical não é recuperado da memória em tempo, as regras morfológicas da língua geralmente operam para gerar um substituto. De que modo, precisamente, esse processo se dá na fala espontânea é objeto de debate entre modelos teóricos que tentam explicar como funciona o acesso aos itens lexicais na produção de enunciados (Stemberger (1998) traz uma visão geral de algumas das questões envolvidas).
Não é muito surpreendente ver esse tipo de "erro" acontecer no caso dos viventes da Bélgica, afinal, belga não é uma palavra muito comum na fala da maioria das pessoas, e a freqüência de um item lexical influencia a probabilidade de ele ser corretamente recuperado da memória. Não é necessário, então, desconhecer esta palavra para dizer a outra, bélgico. E é bem possível que todos os três, Casagrande, Rivellino e Dadá Maravilha, tenham feito isso, e outras pessoas também, possivelmente em situações em que estivessem sendo submetidas a algum tipo de estresse (diante de uma câmera de TV, por exemplo).
Nada disso seria motivo de piada se as pessoas tivessem o trabalho de ir a um bom dicionário e ver que bélgico está lá registrado (assim como turquês).
"Adendo" ou "Probleminha de Morfologia"
Mais intrigante do que o fato de esse "erro" ter ocorrido, é a estrutura morfológica do seu resultado, bélgico, que se parece com a de gentílicos como soviético e tessalônico. Há outros gentílicos formados por -ico, como babilônico, irânico, macedônico, mediterrânico e mesopotâmico, mas estes são diferentes, porque podem ser mais facilmente analisados como <NOME DO LUGAR> + ico. Já nos casos de bélgico, soviético e tessalônico, as palavras base, ao menos semanticamente, são Bélgica, (União) Soviética e Tessalônica, de modo que não basta apenas adicionar o sufixo -ico para formar os respectivos gentílicos (ex. *belgicaico). Ou a base não é simplesmente o nome do lugar, ou o sufixo não é toda a seqüência fonológica -ico, ou alguma operação morfofonológica, como haplologia, está em jogo.
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