Cisco Costa iniciou uma minidiscussão sobre o uso na Internet do sinal de "diferente de". Ele afirma que o sinal consagrado nesse meio é "!=" e que "=/=" deve ser evitado, como "uma bastardização que muita gente usa por não conhecer o símbolo "!="".
O problema de representação dessa noção não é, claro, restrito à Internet. Ele existe ao menos desde que se começou a usar um teclado para escrever, já que esses equipamentos têm um número limitado de teclas. Convenhamos que expressar diferença através de um símbolo não é algo que se tenha de fazer todos os dias; por isso, o clássico "≠", que aprendemos na escola, ficou de fora dos teclados comuns, assim como muitos outros símbolos de utilidade mais restrita. O "≠" ficou de fora também do conjunto de 128 caracteres do ASCII, um padrão de representação de caracteres utilizado pela grande maioria dos computadores. Naturalmente, com essas limitações, maneiras alternativas de simbolizar "diferente de" se tornaram necessárias.
Acho que o primeiro contexto em que isso foi realmente necessário dentro da informática foi o das linguagens de programação - linguagens artificiais utilizadas para criar os softwares e sites da Internet que utilizamos todos os dias. Nesse contexto, às vezes é necessário fazer com que o computador realize uma determinada operação somente se duas coisas forem diferentes, por exemplo: reclamar quando a senha digitada por um usuário é diferente da senha que ele deveria ter digitado se fosse o usuário correto. Isso precisa ser expressado formalmente de maneira concisa, mas, como vimos, "≠" não é uma opção. Sei que, para este fim, algumas linguagens de programação usam "<>", "/=" e "!="; a Wikipedia também registra "~=" e até "=/=". De todos estes, o sinal mais usado é, por acaso, o "!=". Escolhi, no chute, algumas linguagens de programação que me parecem ter sido as mais influentes nas últimas décadas: C/C++, Java, Javascript, Pascal, Perl, PHP e Python. Com exceção da menos popular da lista, Pascal, todas elas usam "!=" como sinal de "diferente de".
E o que isso tudo tem a ver com o uso desse sinal no resto da Internet? Ora, acontece que a Internet nem sempre foi tão popular como é hoje. Há um bom tempo atrás, a proporção de usuários informados sobre linguagens de programação era bem maior. Eram estes os usuários mais ativos em fóruns, em grupos de discussão, na clássica Usenet, onde se popularizaram alguns dos termos e atitudes que hoje são correntes no mundo virtual (spam, flood, flaming, etc.). É bem plausível que, a partir desse meio, dominado por nerds, o símbolo utilizado nas linguagens de programação mais populares tenha se tornado um padrão de uso para todas as situações em que se quer expressar a noção de "diferente de".
Hoje, contudo, a cultura da Internet já não sofre mais influência tão direta desses usuários. A Internet é habitada por milhões de pessoas que nunca viram "!=" ser usado para dizer que uma coisa é diferente de outra. Diante do mesmo problema de representação que os primeiros usuários enfrentaram, os de hoje têm de encontrar suas próprias soluções: "=/=", embora seja feia para o meu gosto e menos econômica, é das que mais se assemelham a "≠". Se fosse mais útil expressar essa noção cotidianamente na Internet, certamente haveria mais gente reclamando do esquecimento do tradicional "!=".
O que temos aí é um tipo de situação que conhecemos bem, com elementos bem comuns: um uso antigo, consagrado pelo tempo ou por um determinado grupo social; um grupo grande de usuários mais novos que desconhecem esse uso; e um grupo pequeno de usuários conhecedores dos usos consagrados, que se esforça por mantê-los como padrão.
Agora, se me perguntarem que sinal usar para expressar "diferente de" na Internet, eu respondo "!=", é claro. É fácil, econômico, e já é um uso consagrado, ainda que quase ninguém saiba disso.