Morfologia

Sink your iPod

Por Emanuel Quadros - sab, 2009-03-07 13:17

O verbo que comumente é utilizado em inglês para se referir ao ato de sincronizar dados entre dispositivos eletrônicos é sync, redução de synchronize. Essa palavra é pronunciada da mesma forma que um outro verbo do inglês, sink "afundar". Apesar da mesma pronúncia, esses dois vocábulos são flexionados de maneiras diferentes. Sink é um verbo irregular cujas formas do passado simples e do particípio passado são, respectivamente, sank e sunk (sunk também é usado como passado simples). Já sync, por ser derivado de synchronize, é um verbo regular, como qualquer verbo novo da língua inglesa que não seja diretamente derivado de um irregular. Sendo um verbo regular, ele recebe a marca flexional padrão do passado do inglês, -ed, tanto no passado simples como no particípio: synced.

Isso tudo é verdade para a grande maioria dos falantes do inglês. No entanto, Neal Whitman, do Literal-Minded, notou uma inovação no uso de sync. Alguns resultados que ele encontrou em uma busca no Google trazem este verbo com uma flexão irregular. Seguem alguns exemplos.

  1. last night when i sank my ipod i got the message to update the ipod software
  2. I did correct the album artist fields and deleted those comments and re-sunk my iPod and still those double albums appear.
  3. I made my own account and transferred all of my songs on it, it worked great but when i sunk my ipod it deleted all of my songs that i previously bought.
  4. i haven’t sunk my ipod for a long time for this very reason.

O melhor exemplo ainda é o que parece ser o mais antigo deles. Trata-se de alguém reclamando do uso de sunk como passado de sync em um fórum sobre gramática, em junho de 2007.

Incredibly, people in my office use "sunk" as the past-tense of "synch" or "sync". All day long, they tell each other (and our software users) that they "sunk" the data. "The data is sunk!"

Can they not hear how ridiculous that sounds? Because these of course are all computer scientists, engineers and database analysts, the question of how to offer an alternative or delicately point out that it's bad P.R. to go around saying the system is "sunk" is a good one.

Esse exemplo é interessante, porque temos aí um grupo de pessoas que fazem uso desse passado irregular na fala, de maneira sistemática. Além disso, os integrantes desse grupo são profissionais da área de informática que têm certa autoridade diante de seus clientes no que diz respeito ao uso desse termo, isto é, que podem ajudar essa irregularidade a se espalhar mais rapidamente. O fato de haver alguém na internet reclamando disso mostra que essa forma irregular é utilizada com uma boa frequência, suficiente para que ela seja motivo de reclamação.

Essas pessoas todas, ao ouvirem sync, devem ter interpretado essa cadeia sonora como sink e, então, aprendido um novo uso para esta palavra. Tratando-se de um uso de sink, que é um verbo irregular, é natural que esses falantes utilizem também uma flexão irregular. Outro indício dessa reinterpretação de sync é o fato, lembrado por Arnold Zwicky nos comentários ao post do Literal-Minded, de que a forma ortográfica "sink" tem sido usada, frequentemente, para representar sync, como nesta pergunta no Yahoo! Answers.

Provavelmente veremos mais gente reclamando desse uso nos próximos anos. Enquanto isso, no Brasil, já tem gente sincando ou syncando.

ReVEL - Morfologia

Por Emanuel Quadros - qui, 2009-03-05 01:24

Saiu ontem a novíssima edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, trazendo trabalhos de Morfologia. Como de costume, a revista traz, além de artigos sobre o tema, duas entrevistas com grandes figuras da área; desta vez, Margarida Basílio e Mark Aronoff. Também há, nesta edição, uma resenha minha do Manual de Morfologia do Português.

O próximo número da revista será sobre Interação e Linguagem.

... Rio Grande do Sul, Sol, CELSUL

Por Emanuel Quadros - seg, 2008-11-03 23:18

O VIII Encontro do CELSUL terminou nessa sexta-feira. Não tive tempo para escrever aqui durante o evento, e agora é tarde para reportar tudo o que aconteceu, mas posso dizer que minha única reclamação séria é quanto a ele ter terminado tão cedo!

Tenho pouquíssima experiência com o CELSUL, pois só participei deste e do encontro anterior, em Pelotas, mas posso dizer que o evento vem melhorando a cada edição, como deve acontecer. A próxima será na UNISUL, em Palhoça (SC). Eu sempre desconfio de eventos acadêmicos próximos demais do litoral, mas vamos lá. Espero que a nova diretoria leve adiante os ganhos das anteriores; posso falar dos da atual, que eu vi de perto: organização em grupos temáticos, publicação rápida dos anais do evento, bom espaço para os trabalhos de iniciação científica, etc. Qualquer outra melhoria, claro, será bem-vinda.

Segue, em PDF, o pôster que expus no evento, com um título enorme: Um estudo sobre a relação entre palavra morfológica e palavra fonológica em vocábulos complexos do português brasileiro.

E vieram os bélgicos

Por Emanuel Quadros - dom, 2008-08-31 18:32

Aí vai um post que ficou guardado, esperando este blog ser lançado. O chato é que as olimpíadas de Pequim acabaram e o assunto ficou com cara de velho.

O caso é que no Bronze Brasil 2008, que, diga-se de passagem, teve a melhor cobertura dessas olimpíadas, fez-se o seguinte comentário após a derrota da seleção brasileira de futebol na semifinal contra a Argentina.

Como disse Walter Casagrande na copa de 2002: “que venham os bélgicos”.

É interessante notar que ninguém sabe ao certo - mas todo mundo acha que sabe - quem disse isso pela primeira vez. Nos comentários ao post, teve gente negando que tenha sido Walter Casagrande e gente garantindo que a frase foi criação de Roberto Rivellino. Já em outro site, no texto "Puta Trampo - O Manifesto", César Albiero atribui a frase a Dadá Maravilha e ensaia uma explicação baseada no que ele chama de "filosofia do Puta Trampo".

Pq serah q ele falou bélgicos? Pq eh puta trampo conhecer todas as nacionalidades, nao eh msm? Portanto, depois dos bélgicos vieram os turqueses, os alemanhos e assim foi...

Não deixa de ser um jeito de explicar o que aconteceu: no desconhecimento do gentílico adequado, a morfologia da língua entra em ação e gera uma alternativa. Uma explicação mais séria teria que levar em conta o fato de que esse tipo de "erro" ocorre mesmo quando o falante tem conhecimento de qual é a palavra comumente utilizada no contexto em questão.

Acontece que o acesso aos itens de nosso léxico mental não é cem por cento confiável em todos os momentos. Quando ele não ocorre como esperado, isto é, quando um item lexical não é recuperado da memória em tempo, as regras morfológicas da língua geralmente operam para gerar um substituto. De que modo, precisamente, esse processo se dá na fala espontânea é objeto de debate entre modelos teóricos que tentam explicar como funciona o acesso aos itens lexicais na produção de enunciados (Stemberger (1998) traz uma visão geral de algumas das questões envolvidas).

Não é muito surpreendente ver esse tipo de "erro" acontecer no caso dos viventes da Bélgica, afinal, belga não é uma palavra muito comum na fala da maioria das pessoas, e a freqüência de um item lexical influencia a probabilidade de ele ser corretamente recuperado da memória. Não é necessário, então, desconhecer esta palavra para dizer a outra, bélgico. E é bem possível que todos os três, Casagrande, Rivellino e Dadá Maravilha, tenham feito isso, e outras pessoas também, possivelmente em situações em que estivessem sendo submetidas a algum tipo de estresse (diante de uma câmera de TV, por exemplo).

Nada disso seria motivo de piada se as pessoas tivessem o trabalho de ir a um bom dicionário e ver que bélgico está lá registrado (assim como turquês).

"Adendo" ou "Probleminha de Morfologia"

Mais intrigante do que o fato de esse "erro" ter ocorrido, é a estrutura morfológica do seu resultado, bélgico, que se parece com a de gentílicos como soviético e tessalônico. Há outros gentílicos formados por -ico, como babilônico, irânico, macedônico, mediterrânico e mesopotâmico, mas estes são diferentes, porque podem ser mais facilmente analisados como <NOME DO LUGAR> + ico. Já nos casos de bélgico, soviético e tessalônico, as palavras base, ao menos semanticamente, são Bélgica, (União) Soviética e Tessalônica, de modo que não basta apenas adicionar o sufixo -ico para formar os respectivos gentílicos (ex. *belgicaico). Ou a base não é simplesmente o nome do lugar, ou o sufixo não é toda a seqüência fonológica -ico, ou alguma operação morfofonológica, como haplologia, está em jogo.



Stemberger, Joseph Paul (1998) Morphology in language production with special reference to connectionism. In: Andrew Spencer & Arnold M. Zwicky (eds.) The Handbook of Morphology, pp. 428-451. Oxford: Blackwell.

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