Bananas

Felizmente, ainda não vi repercussão na imprensa brasileira de um novo estudo que tenta ignorar quase tudo o que há de interessante na linguagem humana para conferir competência lingüística a bonobos. Trata-se de "Aspects of Repetition in Bonobo-Human Conversation: Creating Cohesion in a Conversation Between Species", publicado no mês passado, na revista "Integrative Psychological and Behavioral Science", por Janni Pedersen e William M. Fields. Para dizer a verdade, o press release do Great Ape Trust of Iowa, centro de conservação e pesquisa de onde o trabalho saiu, é mais sem-noção do que o próprio estudo a que ele se refere.

Em resumo, o estudo de Pedersen e Fields aplica métodos da Análise da Conversa para estudar a interação entre Sue Savage-Rumbaugh e Panbanisha, uma bonobo do Great Ape Trust. No fim das contas, ela chega, torta e tortuosamente, à conclusão de que os bonobos desse lugar têm habilidades lingüísticas semelhantes às dos humanos, sendo capazes de conversar fluentemente com estes.

Já o press release afirma que as conclusões desse estudo contrariam a visão de lingüistas como Noam Chomsky, que afirmam que a faculdade da linguagem é um traço característico dos seres humanos. Besteira. Quando um lingüista dessa linha diz que a linguagem é específica à espécie humana, ele quer dizer que nenhuma outra espécie possui um sistema gramatical recursivo que permita o pareamento entre o som e o significado de um número infinito de sentenças. Mostrar que outros hominídeos podem ser treinados para utilizar um número limitado de símbolos, em situações que se assemelham às de interação entre seres humanos, não chega nem perto de falsear a hipótese chomskyana. Bons primatólogos que já tentaram coisas parecidas, como David Premack e Herbert S. Terrace, reconhecem hoje o inevitável fracasso da empreitada.

Para quem não tem acesso institucional à revista, o artigo de Janni Pedersen sai por 32 dólares, mas tudo bem, porque não vale a pena mesmo. A parte mais interessante já foi reproduzida e disponibilizadade por Mark Liberman, do Language Log; trata-se da transcrição da interação entre Savage-Rumbaugh e Panbanisha. Vale a pena dar uma olhada nessa transcrição para se ter uma idéia da bondade e do trabalho de interpretação necessários para que alguém diga que a bonobo está, de fato, conversando com a pesquisadora de maneira significativamente comparável ao modo como seres humanos conversam entre si. Bem, Janni Pedersen é uma dessas pessoas boazinhas que querem muito que outros hominídeos apresentem características da cognição humana, como a linguagem; então ela se esforça.

Além da transcrição, é possível ver o vídeo sobre o qual ela foi feita.

Um pouco sobre a análise de Pedersen

O contexto da interação é o seguinte: estão na floresta Panbanisha, um cão, Sue Savage-Rumbaugh e um homem chamado de Russ. A cena toda começa com Panbanisha perseguindo o cachorro, que foge assustado. Russ resolve a situação pegando o cachorro no colo. A transcrição começa aí, com Savage-Rumbagh e Panbanisha sentadas em um banquinho, interagindo em algo que os pesquisadores chamariam de "conversa". A poucos metros, Russ e o cachorro estão sentados em uma mesa.

A suposta conversa se dá por meio de um teclado eletrônico contendo lexigramas, isto é, símbolos que, para nós, representam palavras. Pouco tempo depois de uma tecla ter sido pressionada, uma gravação da palavra correspondente é executada pelo aparelho. No meio das sentenças dirigidas oralmente aos animais, algumas palavras são também assinaladas no teclado (na transcrição, as palavras "ditas" por meio do teclado estão em letras maiúsculas). Até aí tudo bem. Há tempos que se sabe fazer com que hominídeos espertos, loucos para ganhar recompensas, associem certos símbolos a certas situações do mundo - a parte das recompensas é bem importante.

As primeiras linhas da transcrição já dizem muito sobre o que está por vir:

1. PB: CARRY YES
2. SSR: you want Russ to carry you? ((quiet laughter)) instead of the dog. (1.0)
3. Panbanisha i’m going to tell you something (4.5)
4. Russ is going to CARRY the DOG because the DOG is SCARED of
5. PANBANISHA. the dog is scared of you.
6. (1.8)
7. PB: CARRY ((Panbanisha points to the lexigram on the keyboard))

Panbanisha começa apontando para os lexigramas CARRY e YES. É claro que não sabemos exatamente por que a bonobo disse isso. Pedersen simplesmente assume que Panbanisha queria ser carregada. A justificativa?

The response from SSR [Sue Savage-Rumbaugh: EQ] in line 2, as well as the further development of the conversation, indicates that the utterance functions as a request. (Pedersen e Fields, 2008:10)

Reparem na lógica da justificativa. Já que a pesquisadora assumiu que Panbanisha tenha feito um pedido e levou a interação adiante sob essa premissa, conclui-se que Panbanisha, de fato, fez um pedido! À parte a lógica torta, essa interpretação até é plausível, mas várias outras também o são: por exemplo, Panbanisha poderia estar simplesmente "descrevendo" o fato de que Russ, naquele momento, estava carregando o cachorro. Afinal, esses animais são treinados para identificar no teclado lexigramas correspondentes a objetos e eventos do mundo. A simples apresentação do teclado pela pesquisadora, pode ter sido suficiente para que Panbanisha se sentisse em situação de teste e fosse compelida a achar o lexigrama que pudesse lhe render uma banana.

Após cinco linhas de pausas e frases da pesquisadora, que tenta explicar a situação para Panbanisha, a bonobo simplesmente repete CARRY. Nas 32 linhas seguintes, Savage-Rumbaugh e Russ falam sobre a situação, até que Panbanisha repete YES CARRY:

36. Mocha just doesn’t wanna see you panbanisha (.) she wants you to (.)
37. Mocha wants you to (0.2) GO AWAY [that’s what Mocha wants you to do (.)
38. she wants you to]
39. PB: [YES CARRY]

O detalhe é que, como pode ser visto no trecho acima, esse "enunciado" de Panbanisha não tem nenhuma relação aparente com o que a pesquisadora vinha dizendo. Eu adoraria ver Pedersen tentando interpretar o que Panbanisha disse dessa vez, mas não me surpreendo nenhum pouco que ela não tenha feito isso. Parece que a bonobo não estava nem aí para a suposta conversa; queria era saber onde estavam as bananas!

Comentei apenas as primeiras linhas da transcrição, mas o resto não é muito diferente.

Bananas

Um vídeo com Kanzi, o bonobo mais esperto do Great Ape Trust, dá uma palhinha de como funcionam as coisas nesse tipo de pesquisa. No fim das contas, os animais não parecem estar fazendo muito mais do que truques para ganhar recompensas - sem querer, os pesquisadores acabam assemelhando-os mais a bichos de circo do que a seres humanos. É claro que esses feitos são interessantes, até surpreendentes. De fato, o estudo deles poderia revelar fatos interessantes sobre a cognição dos grandes primatas, mas nada sobre a linguagem humana, que é algo completamente diferente! A maior falha desses pesquisadores é tentar dar esse passo - grande demais.

Incidentalmente, um fato sobre a cognição dos primatas revelado pelos estudos do Great Ape Trust é que esses animais não são naturalmente preparados para aprender a "linguagem" que ensinam no laboratório. Para começar eles precisam de recompensas para fazer o que os pesquisadores querem; crianças humanas não precisam ganhar dinheiro (ou bananas) para adquirirem uma língua. Primatas precisam também de bastante treinamento, e, como geralmente acontece com habilidades aprendidas, nem todos os indivíduos conseguem alcançar um desempenho satisfatório. Muitos deles já participaram de pesquisas desse tipo, mas poucos viraram notícia - a mãe de Kanzi, por exemplo, não era tão esperta e foi um fracasso. Crianças humanas, contudo, adquirem uma língua de maneira mais ou menos uniforme, independentemente de seus níveis de inteligência e sem a necessidade de treinamento específico - no caso de habilidades aprendidas, como calcular equações de segundo grau, elas demonstram alta variabilidade de desempenho, assim como primatas em relação a pseudo-línguas de laboratório.

Para terminar, uma frase de Herbert S. Terrace:

If a child did exactly what the best chimpanzee did, the child would be thought of as disturbed.

VIII Encontro do CELSUL

Tags:  

Ainda há tempo para os atrasados se inscreverem no próximo Encontro do Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul. Desta vez o evento acontecerá em casa, na UFRGS (no Campus do Centro), entre os dias 29 e 31 de outubro. A programação e outras informações podem ser consultadas no site do evento.

Eu vou estar lá nas sessões de pôsteres e na cobertura do resto do encontro.

E vieram os bélgicos

Aí vai um post que ficou guardado, esperando este blog ser lançado. O chato é que as olimpíadas de Pequim acabaram e o assunto ficou com cara de velho.

O caso é que no Bronze Brasil 2008, que, diga-se de passagem, teve a melhor cobertura dessas olimpíadas, fez-se o seguinte comentário após a derrota da seleção brasileira de futebol na semifinal contra a Argentina.

Como disse Walter Casagrande na copa de 2002: “que venham os bélgicos”.

É interessante notar que ninguém sabe ao certo - mas todo mundo acha que sabe - quem disse isso pela primeira vez. Nos comentários ao post, teve gente negando que tenha sido Walter Casagrande e gente garantindo que a frase foi criação de Roberto Rivellino. Já em outro site, no texto "Puta Trampo - O Manifesto", César Albiero atribui a frase a Dadá Maravilha e ensaia uma explicação baseada no que ele chama de "filosofia do Puta Trampo".

Pq serah q ele falou bélgicos? Pq eh puta trampo conhecer todas as nacionalidades, nao eh msm? Portanto, depois dos bélgicos vieram os turqueses, os alemanhos e assim foi...

Não deixa de ser um jeito de explicar o que aconteceu: no desconhecimento do gentílico adequado, a morfologia da língua entra em ação e gera uma alternativa. Uma explicação mais séria teria que levar em conta o fato de que esse tipo de "erro" ocorre mesmo quando o falante tem conhecimento de qual é a palavra comumente utilizada no contexto em questão.

Acontece que o acesso aos itens de nosso léxico mental não é cem por cento confiável em todos os momentos. Quando ele não ocorre como esperado, isto é, quando um item lexical não é recuperado da memória em tempo, as regras morfológicas da língua geralmente operam para gerar um substituto. De que modo, precisamente, esse processo se dá na fala espontânea é objeto de debate entre modelos teóricos que tentam explicar como funciona o acesso aos itens lexicais na produção de enunciados (Stemberger (1998) traz uma visão geral de algumas das questões envolvidas).

Não é muito surpreendente ver esse tipo de "erro" acontecer no caso dos viventes da Bélgica, afinal, belga não é uma palavra muito comum na fala da maioria das pessoas, e a freqüência de um item lexical influencia a probabilidade de ele ser corretamente recuperado da memória. Não é necessário, então, desconhecer esta palavra para dizer a outra, bélgico. E é bem possível que todos os três, Casagrande, Rivellino e Dadá Maravilha, tenham feito isso, e outras pessoas também, possivelmente em situações em que estivessem sendo submetidas a algum tipo de estresse (diante de uma câmera de TV, por exemplo).

Nada disso seria motivo de piada se as pessoas tivessem o trabalho de ir a um bom dicionário e ver que bélgico está lá registrado (assim como turquês).

"Adendo" ou "Probleminha de Morfologia"

Mais intrigante do que o fato de esse "erro" ter ocorrido, é a estrutura morfológica do seu resultado, bélgico, que se parece com a de gentílicos como soviético e tessalônico. Há outros gentílicos formados por -ico, como babilônico, irânico, macedônico, mediterrânico e mesopotâmico, mas estes são diferentes, porque podem ser mais facilmente analisados como <NOME DO LUGAR> + ico. Já nos casos de bélgico, soviético e tessalônico, as palavras base, ao menos semanticamente, são Bélgica, (União) Soviética e Tessalônica, de modo que não basta apenas adicionar o sufixo -ico para formar os respectivos gentílicos (ex. *belgicaico). Ou a base não é simplesmente o nome do lugar, ou o sufixo não é toda a seqüência fonológica -ico, ou alguma operação morfofonológica, como haplologia, está em jogo.



Stemberger, Joseph Paul (1998) Morphology in language production with special reference to connectionism. In: Andrew Spencer & Arnold M. Zwicky (eds.) The Handbook of Morphology, pp. 428-451. Oxford: Blackwell.

Pesquise preços de The Handbook of Morphology.


ReVEL - Psicolingüística

A mais nova edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL está no ar já faz algumas semanas, com vários artigos sobre Psicolingüística, além de entrevistas com Gary Marcus e Leonor Scliar-Cabral.

Olhos para a próxima edição, que será sobre Morfologia! A revista estará recebendo artigos sobre esse tema até o dia 5 de dezembro.

Hello, world!

Tags:  

Primeiro post.

Quem já me conhece pode perguntar "por que este novo blog e não mais o bom e velho Language Bar?" Um pouco de história pode ajudar a explicar.

O Language Bar foi uma ótima idéia criada por quatro amigos, eu e mais três colegas da UFRGS; todos, na época, apaixonados pela Lingüística. O objetivo era criar um espaço de discussão em que pudéssemos compartilhar nossas idéias e descobertas nessa área cheia de problemas e mistérios, que começávamos a desbravar.

Em pouco tempo, uma pequena comunidade se formou em torno do blog: conhecemos lingüistas por aí, conquistamos alguns leitores fiéis e suscitamos algumas boas discussões. Alcançamos nossos objetivos iniciais. Mas, por razões externas, como a perda de interesse de alguns pela área, o impulso inicial foi se esgotando, e o que era um blog ativo e coletivo foi se tornando um cemitério de discussões antigas, com algumas postagens esparsas de um ou dois membros do grupo inicial.

Porém, mesmo deixando de ser um blog efetivamente colaborativo, já que os outros autores não escrevem mais nele, o Language Bar não tem vocação para ser um blog individual; afinal, ele nasceu de uma iniciativa coletiva. Ao invés de continuar lá, resolvi então me mudar para cá, pois continuo gostando de blogar. O tema principal continua o mesmo, "linguagem, Lingüística e adjacências". A diferença é que, por este se tratar de um blog pessoal, há nele um espaço maior para falar também sobre quaisquer outros temas que me interessem. Espero que a parcela de leitores fiéis do Language Bar acompanhe minha mudança para cá.

Atualizem seus links e assinem o novo feed de RSS! Para quem ainda não sabe o que é um "feed de RSS", trata-se de uma maneira simples de acompanhar as atualizações de seus sites favoritos. Criei uma página que explica como isso funciona (clique aqui para vê-la!).

Quanto ao Language Bar, foi uma ótima experiência, que vai continuar online. Para quem ainda não conhece, recomendo fortemente uma passada por lá.

Syndicate content