Alan Prince fala sobre o ROA

Lá pelo fim de novembro, o ROA (Rutgers Optimality Archive), um conhecido arquivo de textos relacionados à Teoria da Otimidade, recebeu sua milésima postagem. Para marcar essa ocasião, Alan Prince, o fundador da coisa toda, concedeu uma entrevista bem interessante à última edição do SNARL (Selected News At Rutgers Linguistics). Nela, Prince fala sobre a história do arquivo, desde seus esforços iniciais até seu relativo sucesso nos dias de hoje, e sobre os rumos das publicações no mundo digital.

Eu não tenho toda a simpatia do mundo pelo ROA, devido ao papel que ele exerceu na consolidação do monopólio intelectual de que a Teoria da Otimidade goza em muitos círculos de Fonologia por aí - vale lembrar que o arXiv.org, banco no qual o ROA se inspirou, é muito mais democrático e não é restrito a uma corrente teórica dentro da Física ou de qualquer outra área a que ele se destina. De qualquer forma, não posso deixar de concordar com Alan Prince quando ele fala sobre as inúmeras vantagens da circulação de textos científicos em meio eletrônico (nesse sentido, o ROA foi uma iniciativa pioneira na Lingüística) e sobre a obsolescência das publicações em papel. Vale a pena ler a entrevista.

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Para quem ficou curioso e quer saber mais sobre a Teoria da Otimidade, há uma introdução bem acessível ao assunto, de Luiz Carlos Schwindt, na quarta edição de "Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro". Para quem já tem alguma familiaridade com a área e quer se aprofundar no tema, o "Thematic Guide to Optimality Theory", de John J. McCarthy, é a melhor opção.

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Notícia triste de fim de ano

Inspiração para Aldo Rebelo

De acordo com o jornal The Budapest Times, o Ministério da Cultura da Eslováquia propôs uma emenda que lhe daria o direito de cobrar multas de até 100 euros pelo "uso incorreto" da língua nacional, o eslovaco! É claro que os representantes da minoria húngara (que é quase 10% da população) condenam a proposta.

Como disse Daniel Midgley, lá no Good Reason, é hora de a mídia húngara desenterrar "usos incorretos" dos próprios líderes dessa proposta - afinal, ninguém consegue fugir deles, quando eles são definidos em relação a um padrão de língua fictício e arbitrário, como ocorre por aqui e pelo mundo afora também.

Voltando

Ainda não se passou nenhum mês desde a última vez em que publiquei algo neste blog, então ainda estamos longe de um caso de abandono. As últimas semanas foram extremamente desgastantes e me lembraram de uma comunidade do orkut: A facul atrapalha meus estudos. Mas o semestre finalmente acabou, e, aos poucos, eu vou voltando a escrever por aqui.

Enquanto isso, uma pequena seleção de coisas que li por aí.

Alomorfe zero

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Izadora explica alomorfe zero:

Izadora explica alomorfe zero

Clique na imagem para vê-la ampliada, no álbum da autora.

... Rio Grande do Sul, Sol, CELSUL

O VIII Encontro do CELSUL terminou nessa sexta-feira. Não tive tempo para escrever aqui durante o evento, e agora é tarde para reportar tudo o que aconteceu, mas posso dizer que minha única reclamação séria é quanto a ele ter terminado tão cedo!

Tenho pouquíssima experiência com o CELSUL, pois só participei deste e do encontro anterior, em Pelotas, mas posso dizer que o evento vem melhorando a cada edição, como deve acontecer. A próxima será na UNISUL, em Palhoça (SC). Eu sempre desconfio de eventos acadêmicos próximos demais do litoral, mas vamos lá. Espero que a nova diretoria leve adiante os ganhos das anteriores; posso falar dos da atual, que eu vi de perto: organização em grupos temáticos, publicação rápida dos anais do evento, bom espaço para os trabalhos de iniciação científica, etc. Qualquer outra melhoria, claro, será bem-vinda.

Segue, em PDF, o pôster que expus no evento, com um título enorme: Um estudo sobre a relação entre palavra morfológica e palavra fonológica em vocábulos complexos do português brasileiro.

O desenvolvimento da linguagem

As etapas do desenvolvimento da linguagem nas galinhas de Doug Savage:

O desenvolvimento da linguagem

E é claro que, nos comentários ao cartum, alguém tinha que vir com a mesma bobagem de sempre: um professor reclamando que seus alunos adolescentes dizem shit (sh*t, porque as crianças estão vendo), mas não saberiam dizer a que classe gramatical essa palavra pertence. Conclusão da pessoa: palavrões, nos dias de hoje, desenvolvem-se antes da gramática...

Mudamos de área

Há algo errado na catalogação dos livros da Springer no SpringerLink. Alguns títulos têm aparecido indevidamente como pertencentes à série "Vertebrate Paleobiology and Paleoanthropology", formando combinações, no mínimo, estranhas. Não sei se é só com livros de Lingüística que isso tem acontecido, mas aí vão dois exemplos.

Erro na catalogação de Roots and Paterns


Formação de palavras no Pleistoceno:

Erro na catalogação do Handbook of Word-Formation

Sem Medo dos Constituintes

Uma das idéias mais importantes da Sintaxe - e da Lingüística de modo geral - é a noção de constituinte. Trata-se de unidades em que os elementos lingüísticos se agrupam. Essas unidades, por sua vez, agrupam-se em constituintes cada vez maiores, formando uma estrutura hierárquica.

Tomemos como exemplo a frase Meus alunos odeiam fazer suas tarefas. É claro que, na tela do computador, assim como na fala, essa frase apresenta uma estrutura linear bastante simples: meus precede alunos, alunos precede odeiam, e assim por diante. Entretanto, mesmo intuitivamente, podemos notar que as relações que se estabelecem entre cada uma dessas palavras não são idênticas, nem lineares. Por exemplo, meus parece estar mais fortemente relacionado a alunos do que a qualquer outra palavra da sentença; esses dois vocábulos parecem formar uma unidade. Contudo, essa relação não é simplesmente uma questão de precedência. Basta ver que alunos precede odeiam, mas esses elementos não formam uma unidade. A palavra alunos, sozinha, não se relaciona estruturalmente com o resto da frase, apenas com meus. É, antes, toda a unidade meus alunos que se relaciona com a seqüência que continua essa frase. Esse "resto da frase" também é estruturado em uma unidade. A seqüência meus alunos não se relaciona simplesmente com odeiam ou com qualquer outra palavra; ela se relaciona com toda a seqüência odeiam fazer suas tarefas. Trata-se dos dois grandes agrupamentos de palavras em que essa frase pode ser dividida inicialmente; não é a toa que essas duas grandes unidades tem seus próprios nomes - os bem conhecidos "sujeito" e "predicado".

Unidades como as que identificamos no parágrafo anterior são os constituintes da sentença. Tradicionalmente, eles são representados entre colchetes. Até agora, reconhecemos dois grandes constituintes em nosso exemplo; temos então a seguinte estrutura.

  • [[meus alunos] [odeiam fazer suas tarefas]]

Note que cada um dos constituintes está dentro de seu próprio par de colchetes. Além disso, a própria sentença como um todo está entre colchetes. Isso é intencional: a sentença é o constituinte maior, no qual todos os outros estão contidos.

Se dividimos toda essa sentença em constituintes cada vez menores, de acordo com as relações sintáticas que se estabelecem, chegamos à seguinte representação:

  • [ [[meus] [alunos]] [[odeiam] [[fazer] [[suas] [tarefas]]]] ]

Duas coisas são dignas de nota sobre essa representação. A primeira é o fato de que cada palavra está contida, sozinha, em um par de colchetes; isso representa o fato de que cada uma delas forma um constituinte. Como isso é geralmente pressuposto, é comum omitir os colchetes que circundam cada palavra. De fato, para muitos lingüistas, a palavra é o constituinte mais básico da sintaxe. A segunda coisa: colchetes não são nada práticos! Na medida em que as sentenças vão ficando maiores e mais complexas, fica cada vez mais fácil se confundir com eles. No exemplo acima, o problema não é tão grande, porque eu facilitei a vida dos leitores, manipulando o tamanho dos colchetes.

Uma solução para a falta de praticidade dos colchetes são as famosas árvores sintática. Trata-se de uma maneira muito mais elegante de se representar os constituintes e as relações hierárquicas que se estabelecem entre eles. A representação de colchetes acima pode ser traduzida na seguinte árvore.

Representação de 'Meus alunos odeiam fazer suas tarefas' em árvore sintática

Testes de constituência

Encontrar os constituintes de uma sentença não é um trabalho de adivinhação. Freqüentemente, a intuição de um analista nativo na língua em estudo funciona bem, mas há uma série de testes disponíveis para sanar as eventuais dúvidas e ajudar o lingüista a analisar uma sentença com precisão. Esses testes baseiam-se na própria idéia de constituinte: se estes funcionam como unidades na estrutura sintática, deve ser possível encontrar situações em que os elementos que formam um constituinte comportam-se como uma unidade.

Um teste simples é verificar se a seqüência de palavras que se quer testar pode, sozinha, ser a resposta a uma pergunta sobre o evento caracterizado na sentença. Se a resposta for negativa, a seqüência não é um constituinte; se for positiva, ela provavelmente o é. Usando novamente o exemplo Meus alunos odeiam fazer suas tarefas, podemos fazer uma série de perguntas, como:

  1. Quem odeia fazer suas tarefas?
  2. O que meus alunos odeiam?
  3. O que meus alunos odeiam fazer?

As respostas a elas são todas constituintes:

  1. Meus alunos.
  2. Fazer suas tarefas.
  3. Suas tarefas.

Agora, você não vai encontrar uma pergunta cuja resposta seja simplesmente "fazer suas", porque essas duas palavras não formam juntas um constituinte sintático.

Há muitos outros testes possíveis. Como a Sintaxe opera com constituintes, sempre que virmos uma operação sintática sendo realizada sobre um certo conjunto de palavras, podemos estar certos de que esse conjunto é um constituinte. Uma operação desse tipo é o movimento que nos permite dizer: Fazer suas tarefas é o que meus alunos odeiam. Ele mostra que fazer suas tarefas é um constituinte em nosso exemplo, pois esse conjunto de palavras pode ser movido como uma unidade.

Constituência e interpretação semântica

E aí vem o porquê dessa breve introdução à noção de constituinte. É que ontem vi no site da UFRGS a seguinte manchete Projeto Dirigir Sem Medo do Colégio de Aplicação. Minha primeira leitura foi, claro, a engraçadinha: um projeto que ajuda pessoas que sentem calafrios quando passam de carro pelo Colégio de Aplicação da UFRGS. É claro que não é isso: na verdade, o projeto é promovido pelo Colégio de Aplicação e é voltado para pessoas que têm medo de dirigir nos grandes centros urbanos.

Como está, a manchete é ambígua. Essa ambigüidade é facilmente resolvida por nosso conhecimento extralingüístico de que ninguém dirige com medo do Colégio de Aplicação (ao menos para quem sabe que colégio é esse, a interpretação é óbvia). Ainda assim, a ambigüidade existe. Ela se origina do fato de que mais de uma estrutura sintática é compatível com a seqüência de vocábulos Projeto Dirigir Sem Medo do Colégio de Aplicação. Seguem representações dessas alternativas.

  1. [[Projeto Dirigir Sem Medo] do Colégio de Aplicação]
  2. [Projeto Dirigir Sem [Medo do Colégio de Aplicação]]

A estrutura desses constituintes é mais complexa do que isso, mas omiti o máximo que pude, para mostrar apenas as relações que interessam nesse caso de ambigüidade.

O que há de importante a ser observado nas alternativas de estrutura acima é que, na primeira delas, a seqüência do Colégio de Aplicação está fora do constituinte que representa o nome do projeto, portanto não é parte deste. Nesse caso, essa seqüência não pode modificar apenas o elemento Medo, pois ele está inacessível a ela. Tudo o que essa seqüência enxerga é o constituinte Projeto Dirigir Sem Medo como um todo, e é ele que ela modifica.

Já na segunda opção de estrutura, do Colégio de Aplicação forma um constituinte com a palavra Medo. Esse constituinte, por sua vez, está contido no constituinte que representa o nome do projeto, portanto nossa seqüência agora faz parte desse nome. Como, nesse caso, o vocábulo "Medo" é vizinho da seqüência do Colégio de Aplicação, dentro do mesmo constituinte, ele está visível a ela e pode, portanto, ter seu sentido complementado pela seqüência. Agora sim, trata-se de um "medo do Colégio de Aplicação".

A interpretação pretendida pelos autores da notícia, claro, é a representada pela primeira estrutura. Se fosse na fala, a ambigüidade provavelmente não existiria, porque o falante teria feito uma pequena pausa após a palavra "Medo". Pausa esta que não existiria caso a interpretação pretendida fosse a segunda. Isso mostra que a estrutura sintática de uma sentença tem uma relação interessante com sua estrutura prosódica. No corpo do texto da notícia, a ambigüidade também é sanada, porque o autor utilizou uma vírgula no mesmo lugar.

Resumindo...

As palavras de uma sentença agrupam-se em constituintes hierarquicamente organizados. As especificidades desses agrupamentos e de sua organização determinam, em grande medida, as possíveis interpretações de uma sentença.

Novo site da Revista de Estudos da Linguagem

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O novo site da Revista de Estudos da Linguagem, da Faculdade de Letras da UFMG, está bonitinho.

A melhor parte é que todos os números publicados podem ser acessados gratuitamente. Como acontece com outras revistas de acesso livre, esta ainda mantém uma opção de assinatura impressa paga. Aposto que a disponibilização dos artigos para download não terá um impacto negativo na receita da revista. Ao contrário, a publicação ganha em visibilidade e importância.

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