Até agora eu não havia falado sobre o novo acordo ortográfico neste blog. Não foi esquecimento; é que nunca achei o assunto muito interessante para ser tratado aqui: ele me parece ter muito mais implicações econômicas do que linguísticas, apesar do que se diz por aí. Se eu tivesse um blog sobre o mercado editorial, certamente teria tocado no assunto mais cedo.
O tema se torna um pouco mais interessante quando observamos a reação da mídia e das pessoas à reforma ortográfica. E não há nada melhor do que começar o ano reclamando da cobertura da imprensa, que deve estar bem feliz com o potencial de interesse do tema. O problema é que, não bastando haver um interesse natural das pessoas pela perspectiva de mudanças com as quais todas elas terão que conviver, é preciso ainda exagerá-las, fazendo-as parecerem muito mais profundas do que são.
Na quinta-feira, por exemplo, ouvi o Boris Casoy falar sobre "as mudanças na gramática do português". No Jornal Nacional da segunda passada, Fátima Bernardes disse que "os brasileiros vão precisar reaprender a escrever". Logo em seguida, em uma entrevista para esta mesma reportagem, Pasquale Cipro Neto acertou e disse que se trata apenas de uma reforma ortográfica, não de uma mudança na língua: "a língua é uma coisa, a ortografia é outra". Mas, logo depois, o repórter disse que "o ideal, no entanto, é adotar o novo português já no dia 1º de janeiro" - não sei de que português ele estava falando.
Muitos já disseram isso, mas não custa repetir: a gramática da língua portuguesa não muda com a reforma ortográfica. É verdade que muda a grafia de algumas palavras (e só de algumas mesmo), mas nenhuma delas vai ter sua estrutura morfológica, sua colocação sintática, sua interpretação semântica ou mesmo sua pronúncia alteradas pela reforma ortográfica que entrou em vigor na semana passada.
A escrita é uma maneira convencional de representar os produtos de nossa gramática. Ela não faz, a rigor, parte dessa gramática. Se, de repente, resolvêssemos utilizar uma variação do alfabeto cirílico ao invés do nosso conhecido alfabeto latino, alterando completamente nossas normas ortográficas nessa transição, a gramática da língua portuguesa continuaria sendo a mesma - não passaria a ser mais parecida com a de uma língua eslava. O mesmo pode ser dito sobre o famigerado internetês: não é outra língua; é apenas outra maneira, mais ou menos convencional, de representar graficamente a língua portuguesa. Quem acha que é outra língua, deveria parabenizar os internautas por aprenderem uma língua não-nativa em tão pouco tempo! ;)
Mas, com bondade, até dá para salvar a afirmação de que a gramática da língua portuguesa vai mudar, se pensarmos em "gramática" como aquela categoria de livros que documentam o uso da variedade padrão da língua. Tais livros, por serem obras de referência sobre aspectos institucionalizados da língua, costumam ter um capítulo dedicado à ortografia, que naturalmente terá de ser ajustado às novas regras. A gramática-livro, então, vai mesmo mudar um pouquinho, mas só um pouquinho.
Talvez pior do que tudo isso seja a idéia de que "os brasileiros vão precisar reaprender a escrever". Se eu fosse um desses editores que vão ganhar um bom dinheiro com a venda de guias práticos da nova ortografia, eu não diria isso, mas ninguém vai precisar reaprender a escrever. E a não ser que você vá participar do Soletrando, ou de algo tipo, não há muito com o que se preocupar. As mudanças são pequenas; algumas delas podem ser confusas, mas, ainda assim, são pequenas.
E ainda que as mudanças fossem maiores, saber escrever não é o mesmo que conhecer as regras ortográficas sancionadas pelo governo. Há uma boa quantidade de pessoas, incluindo bons escritores, que se recusarão a adotar as novas regras ortográficas (da série "Previsões para 2009 e além"). Será que, por isso, essas pessoas deixarão de saber escrever? É claro que não. Elas continuarão sendo usuários fluentes do português (nativos ou não) com um conhecimento bastante especializado do modo como se constrói um bom texto coerente em língua portuguesa, independentemente das convenções ortográficas que resolvam adotar. Assim como os desobedientes, aqueles que resolverem (ou tiverem que) adotar as novas regras não terão que abandonar o que já sabiam sobre escrita, para aprenderem tudo outra vez. Terão apenas que fazer uns pequenos ajustes em uma parte bem superficial de suas regras de uso da língua portuguesa escrita. O resto permanecerá como sempre foi.
Um ótimo 2009, e que ninguém fique com medo de escrever um texto, só porque corre o risco de esquecer um trema ou um acento diferencial por aí!
Segue o link para o vídeo da reportagem do Jornal Nacional da segunda-feira passada, sobre a reforma ortográfica (via fidus interpres).
Reportagem que acabou levando a reforma a sério demais, achando até que ela exige alguns acentos a mais...

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