Rápidas

  • Enquanto Don Killian faz um apelo na Linguist List pela distribuição livre e gratuita de pesquisas em Linguística, o MIT resolve disponibilizar, gratuitamente, os artigos publicados por seus professores a partir do dia 18 de março, por meio do DSpace.
  • Na Inglaterra, estudantes e professores protestam contra o encerramento dos cursos de Linguística na Universidade de Sussex. Quem também não gosta da ideia pode assinar esta petição online, que pede a revogação da decisão.

=/= é diferente de != ?

Cisco Costa iniciou uma minidiscussão sobre o uso na Internet do sinal de "diferente de". Ele afirma que o sinal consagrado nesse meio é "!=" e que "=/=" deve ser evitado, como "uma bastardização que muita gente usa por não conhecer o símbolo "!="".

O problema de representação dessa noção não é, claro, restrito à Internet. Ele existe ao menos desde que se começou a usar um teclado para escrever, já que esses equipamentos têm um número limitado de teclas. Convenhamos que expressar diferença através de um símbolo não é algo que se tenha de fazer todos os dias; por isso, o clássico "≠", que aprendemos na escola, ficou de fora dos teclados comuns, assim como muitos outros símbolos de utilidade mais restrita. O "≠" ficou de fora também do conjunto de 128 caracteres do ASCII, um padrão de representação de caracteres utilizado pela grande maioria dos computadores. Naturalmente, com essas limitações, maneiras alternativas de simbolizar "diferente de" se tornaram necessárias.

Acho que o primeiro contexto em que isso foi realmente necessário dentro da informática foi o das linguagens de programação - linguagens artificiais utilizadas para criar os softwares e sites da Internet que utilizamos todos os dias. Nesse contexto, às vezes é necessário fazer com que o computador realize uma determinada operação somente se duas coisas forem diferentes, por exemplo: reclamar quando a senha digitada por um usuário é diferente da senha que ele deveria ter digitado se fosse o usuário correto. Isso precisa ser expressado formalmente de maneira concisa, mas, como vimos, "≠" não é uma opção. Sei que, para este fim, algumas linguagens de programação usam "<>", "/=" e "!="; a Wikipedia também registra "~=" e até "=/=". De todos estes, o sinal mais usado é, por acaso, o "!=". Escolhi, no chute, algumas linguagens de programação que me parecem ter sido as mais influentes nas últimas décadas: C/C++, Java, Javascript, Pascal, Perl, PHP e Python. Com exceção da menos popular da lista, Pascal, todas elas usam "!=" como sinal de "diferente de".

E o que isso tudo tem a ver com o uso desse sinal no resto da Internet? Ora, acontece que a Internet nem sempre foi tão popular como é hoje. Há um bom tempo atrás, a proporção de usuários informados sobre linguagens de programação era bem maior. Eram estes os usuários mais ativos em fóruns, em grupos de discussão, na clássica Usenet, onde se popularizaram alguns dos termos e atitudes que hoje são correntes no mundo virtual (spam, flood, flaming, etc.). É bem plausível que, a partir desse meio, dominado por nerds, o símbolo utilizado nas linguagens de programação mais populares tenha se tornado um padrão de uso para todas as situações em que se quer expressar a noção de "diferente de".

Hoje, contudo, a cultura da Internet já não sofre mais influência tão direta desses usuários. A Internet é habitada por milhões de pessoas que nunca viram "!=" ser usado para dizer que uma coisa é diferente de outra. Diante do mesmo problema de representação que os primeiros usuários enfrentaram, os de hoje têm de encontrar suas próprias soluções: "=/=", embora seja feia para o meu gosto e menos econômica, é das que mais se assemelham a "≠". Se fosse mais útil expressar essa noção cotidianamente na Internet, certamente haveria mais gente reclamando do esquecimento do tradicional "!=".

O que temos aí é um tipo de situação que conhecemos bem, com elementos bem comuns: um uso antigo, consagrado pelo tempo ou por um determinado grupo social; um grupo grande de usuários mais novos que desconhecem esse uso; e um grupo pequeno de usuários conhecedores dos usos consagrados, que se esforça por mantê-los como padrão.

Agora, se me perguntarem que sinal usar para expressar "diferente de" na Internet, eu respondo "!=", é claro. É fácil, econômico, e já é um uso consagrado, ainda que quase ninguém saiba disso.

Sink your iPod

O verbo que comumente é utilizado em inglês para se referir ao ato de sincronizar dados entre dispositivos eletrônicos é sync, redução de synchronize. Essa palavra é pronunciada da mesma forma que um outro verbo do inglês, sink "afundar". Apesar da mesma pronúncia, esses dois vocábulos são flexionados de maneiras diferentes. Sink é um verbo irregular cujas formas do passado simples e do particípio passado são, respectivamente, sank e sunk (sunk também é usado como passado simples). Já sync, por ser derivado de synchronize, é um verbo regular, como qualquer verbo novo da língua inglesa que não seja diretamente derivado de um irregular. Sendo um verbo regular, ele recebe a marca flexional padrão do passado do inglês, -ed, tanto no passado simples como no particípio: synced.

Isso tudo é verdade para a grande maioria dos falantes do inglês. No entanto, Neal Whitman, do Literal-Minded, notou uma inovação no uso de sync. Alguns resultados que ele encontrou em uma busca no Google trazem este verbo com uma flexão irregular. Seguem alguns exemplos.

  1. last night when i sank my ipod i got the message to update the ipod software
  2. I did correct the album artist fields and deleted those comments and re-sunk my iPod and still those double albums appear.
  3. I made my own account and transferred all of my songs on it, it worked great but when i sunk my ipod it deleted all of my songs that i previously bought.
  4. i haven’t sunk my ipod for a long time for this very reason.

O melhor exemplo ainda é o que parece ser o mais antigo deles. Trata-se de alguém reclamando do uso de sunk como passado de sync em um fórum sobre gramática, em junho de 2007.

Incredibly, people in my office use "sunk" as the past-tense of "synch" or "sync". All day long, they tell each other (and our software users) that they "sunk" the data. "The data is sunk!"

Can they not hear how ridiculous that sounds? Because these of course are all computer scientists, engineers and database analysts, the question of how to offer an alternative or delicately point out that it's bad P.R. to go around saying the system is "sunk" is a good one.

Esse exemplo é interessante, porque temos aí um grupo de pessoas que fazem uso desse passado irregular na fala, de maneira sistemática. Além disso, os integrantes desse grupo são profissionais da área de informática que têm certa autoridade diante de seus clientes no que diz respeito ao uso desse termo, isto é, que podem ajudar essa irregularidade a se espalhar mais rapidamente. O fato de haver alguém na internet reclamando disso mostra que essa forma irregular é utilizada com uma boa frequência, suficiente para que ela seja motivo de reclamação.

Essas pessoas todas, ao ouvirem sync, devem ter interpretado essa cadeia sonora como sink e, então, aprendido um novo uso para esta palavra. Tratando-se de um uso de sink, que é um verbo irregular, é natural que esses falantes utilizem também uma flexão irregular. Outro indício dessa reinterpretação de sync é o fato, lembrado por Arnold Zwicky nos comentários ao post do Literal-Minded, de que a forma ortográfica "sink" tem sido usada, frequentemente, para representar sync, como nesta pergunta no Yahoo! Answers.

Provavelmente veremos mais gente reclamando desse uso nos próximos anos. Enquanto isso, no Brasil, já tem gente sincando ou syncando.

ReVEL - Morfologia

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Saiu ontem a novíssima edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, trazendo trabalhos de Morfologia. Como de costume, a revista traz, além de artigos sobre o tema, duas entrevistas com grandes figuras da área; desta vez, Margarida Basílio e Mark Aronoff. Também há, nesta edição, uma resenha minha do Manual de Morfologia do Português.

O próximo número da revista será sobre Interação e Linguagem.

Corpora e Word Structure de graça (por pouco tempo)

A Edinburgh University Press liberou o acesso a todas as suas revistas. Mas é bom correr, porque a barbada vale só até o fim de fevereiro. Os dois títulos de linguística da editora são Corpora, sobre Linguística de Corpus, e a novíssima Word Structure, sobre Morfologia.

A reforma ortográfica e as buscas na internet

Já que entrei no assunto...

Fábio Said fez um comentário interessante, sob o ponto de vista de um tradutor, sobre as implicações da dita "unificação da ortografia da língua portuguesa". Esse comentário foi feito sobre uma notícia da BBC News que, entre outras coisas, diz o seguinte (grifo meu).

Proponents says the move will make the language more uniform globally, making such things as internet searches and legal documents easier to understand.

Para ele, o argumento em negrito no trecho acima é ruim, porque a nova reforma ortográfica, ao invés de facilitar, acabaria dificultando algumas buscas por terminologia na internet, devido à maior dificuldade de se diferenciar um site português de um brasileiro, com as novas normas de ortografia.

Atualmente, é possível perceber rapidamente, em alguns casos, se um resultado de busca é proveniente de uma página escrita em português brasileiro ou em português europeu, apenas pela grafia de algumas palavras. A unificação da ortografia vai tornar isso um pouco mais difícil, porque certas palavras, como voo, europeia e direcção, vão deixar de ser indicativos de que a página é portuguesa, e não brasileira.

Muitos tradutores usam buscas na internet para saber se uma determinada expressão é de uso corrente em uma determinada língua. No caso de alguém que tenha o português como língua-alvo, é importante saber se a expressão aparece em sites portugueses ou brasileiros. Com a unificação da ortografia, perde-se uma pista para se fazer essa separação.

Mas é claro que o problema não é tão grande assim. Com um olhar mais atento (que um tradutor deve ter), sempre dá para separar uma página brasileira de uma portuguesa. Além disso, a unificação trazida por essa reforma não é completa: palavras como económico e facto continuarão sendo índices de portugalidade.

Há, no entanto, pelo menos um sentido em que a semiuniformização da ortografia do português pode mesmo melhorar algumas buscas na internet. É que a gama de resultados acessíveis com determinadas palavras-chave será maior. Por exemplo, daqui a um bom tempo, alguém que buscar "direção do vento" em um site de busca vai poder acessar conteúdo de qualquer país de língua portuguesa, o que hoje exigiria também uma busca por "direcção do vento" - mais opções, melhor.

É claro que o número de palavras atingidas pela reforma não é muito grande, e nem todas as mudanças afetam esse tipo de pesquisa, mas se pensarmos nas infinitas possibilidades combinatórias de uma mesma palavra ("direção do vento", "sem direção", "direção defensiva", "direção de arte", etc.), esse pode até ser o maior benefício da reforma ortográfica para o público em geral.

Todas as palavras do mundo

Forvo é uma ideia simples, interessante e bem executada. Como diz a própria descrição do site, trata-se de um lugar onde se podem encontrar palavras pronunciadas em suas línguas de origem. As contribuições são todas feitas pelos usuários, que podem gravar palavras de sua língua ou pedir para que alguém pronuncie uma palavra de outro idioma.

Às vezes, é até possível encontrar mais de uma pronúncia para a mesma palavra, com indicação das localizações geográficas onde as gravações foram feitas. No caso da palavra bathroom, por exemplo, dá para ouvir um contraste bem interessante entre uma pronúncia gravada na Califórnia, nos Estados Unidos, e outra, em Perth, bem no oeste da Austrália.

Até o dia de hoje, há só 204 línguas no site, um número que pode crescer, se mais pessoas contribuírem. Uma interessante possibilidade de uso do site, ainda pouco explorada, é o armazenamento de listas de palavras pronunciadas em línguas minoritárias e/ou em vias de extinção.

Pegue seu microfone e contribua!

Relaxa e escreve

Até agora eu não havia falado sobre o novo acordo ortográfico neste blog. Não foi esquecimento; é que nunca achei o assunto muito interessante para ser tratado aqui: ele me parece ter muito mais implicações econômicas do que linguísticas, apesar do que se diz por aí. Se eu tivesse um blog sobre o mercado editorial, certamente teria tocado no assunto mais cedo.

O tema se torna um pouco mais interessante quando observamos a reação da mídia e das pessoas à reforma ortográfica. E não há nada melhor do que começar o ano reclamando da cobertura da imprensa, que deve estar bem feliz com o potencial de interesse do tema. O problema é que, não bastando haver um interesse natural das pessoas pela perspectiva de mudanças com as quais todas elas terão que conviver, é preciso ainda exagerá-las, fazendo-as parecerem muito mais profundas do que são.

Na quinta-feira, por exemplo, ouvi o Boris Casoy falar sobre "as mudanças na gramática do português". No Jornal Nacional da segunda passada, Fátima Bernardes disse que "os brasileiros vão precisar reaprender a escrever". Logo em seguida, em uma entrevista para esta mesma reportagem, Pasquale Cipro Neto acertou e disse que se trata apenas de uma reforma ortográfica, não de uma mudança na língua: "a língua é uma coisa, a ortografia é outra". Mas, logo depois, o repórter disse que "o ideal, no entanto, é adotar o novo português já no dia 1º de janeiro" - não sei de que português ele estava falando.

Muitos já disseram isso, mas não custa repetir: a gramática da língua portuguesa não muda com a reforma ortográfica. É verdade que muda a grafia de algumas palavras (e só de algumas mesmo), mas nenhuma delas vai ter sua estrutura morfológica, sua colocação sintática, sua interpretação semântica ou mesmo sua pronúncia alteradas pela reforma ortográfica que entrou em vigor na semana passada.

A escrita é uma maneira convencional de representar os produtos de nossa gramática. Ela não faz, a rigor, parte dessa gramática. Se, de repente, resolvêssemos utilizar uma variação do alfabeto cirílico ao invés do nosso conhecido alfabeto latino, alterando completamente nossas normas ortográficas nessa transição, a gramática da língua portuguesa continuaria sendo a mesma - não passaria a ser mais parecida com a de uma língua eslava. O mesmo pode ser dito sobre o famigerado internetês: não é outra língua; é apenas outra maneira, mais ou menos convencional, de representar graficamente a língua portuguesa. Quem acha que é outra língua, deveria parabenizar os internautas por aprenderem uma língua não-nativa em tão pouco tempo! ;)

Mas, com bondade, até dá para salvar a afirmação de que a gramática da língua portuguesa vai mudar, se pensarmos em "gramática" como aquela categoria de livros que documentam o uso da variedade padrão da língua. Tais livros, por serem obras de referência sobre aspectos institucionalizados da língua, costumam ter um capítulo dedicado à ortografia, que naturalmente terá de ser ajustado às novas regras. A gramática-livro, então, vai mesmo mudar um pouquinho, mas só um pouquinho.

Talvez pior do que tudo isso seja a idéia de que "os brasileiros vão precisar reaprender a escrever". Se eu fosse um desses editores que vão ganhar um bom dinheiro com a venda de guias práticos da nova ortografia, eu não diria isso, mas ninguém vai precisar reaprender a escrever. E a não ser que você vá participar do Soletrando, ou de algo tipo, não há muito com o que se preocupar. As mudanças são pequenas; algumas delas podem ser confusas, mas, ainda assim, são pequenas.

E ainda que as mudanças fossem maiores, saber escrever não é o mesmo que conhecer as regras ortográficas sancionadas pelo governo. Há uma boa quantidade de pessoas, incluindo bons escritores, que se recusarão a adotar as novas regras ortográficas (da série "Previsões para 2009 e além"). Será que, por isso, essas pessoas deixarão de saber escrever? É claro que não. Elas continuarão sendo usuários fluentes do português (nativos ou não) com um conhecimento bastante especializado do modo como se constrói um bom texto coerente em língua portuguesa, independentemente das convenções ortográficas que resolvam adotar. Assim como os desobedientes, aqueles que resolverem (ou tiverem que) adotar as novas regras não terão que abandonar o que já sabiam sobre escrita, para aprenderem tudo outra vez. Terão apenas que fazer uns pequenos ajustes em uma parte bem superficial de suas regras de uso da língua portuguesa escrita. O resto permanecerá como sempre foi.

Um ótimo 2009, e que ninguém fique com medo de escrever um texto, só porque corre o risco de esquecer um trema ou um acento diferencial por aí!


Segue o link para o vídeo da reportagem do Jornal Nacional da segunda-feira passada, sobre a reforma ortográfica (via fidus interpres).

Reportagem que acabou levando a reforma a sério demais, achando até que ela exige alguns acentos a mais...

Pequeno erro ortográfico em matéria do Jornal Nacional sobre a reforma ortográfica

Alan Prince fala sobre o ROA

Lá pelo fim de novembro, o ROA (Rutgers Optimality Archive), um conhecido arquivo de textos relacionados à Teoria da Otimidade, recebeu sua milésima postagem. Para marcar essa ocasião, Alan Prince, o fundador da coisa toda, concedeu uma entrevista bem interessante à última edição do SNARL (Selected News At Rutgers Linguistics). Nela, Prince fala sobre a história do arquivo, desde seus esforços iniciais até seu relativo sucesso nos dias de hoje, e sobre os rumos das publicações no mundo digital.

Eu não tenho toda a simpatia do mundo pelo ROA, devido ao papel que ele exerceu na consolidação do monopólio intelectual de que a Teoria da Otimidade goza em muitos círculos de Fonologia por aí - vale lembrar que o arXiv.org, banco no qual o ROA se inspirou, é muito mais democrático e não é restrito a uma corrente teórica dentro da Física ou de qualquer outra área a que ele se destina. De qualquer forma, não posso deixar de concordar com Alan Prince quando ele fala sobre as inúmeras vantagens da circulação de textos científicos em meio eletrônico (nesse sentido, o ROA foi uma iniciativa pioneira na Lingüística) e sobre a obsolescência das publicações em papel. Vale a pena ler a entrevista.

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Para quem ficou curioso e quer saber mais sobre a Teoria da Otimidade, há uma introdução bem acessível ao assunto, de Luiz Carlos Schwindt, na quarta edição de "Introdução a estudos de fonologia do português brasileiro". Para quem já tem alguma familiaridade com a área e quer se aprofundar no tema, o "Thematic Guide to Optimality Theory", de John J. McCarthy, é a melhor opção.

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Notícia triste de fim de ano

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