Alomorfe zero

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Izadora explica alomorfe zero:

Izadora explica alomorfe zero

Clique na imagem para vê-la ampliada, no álbum da autora.

... Rio Grande do Sul, Sol, CELSUL

O VIII Encontro do CELSUL terminou nessa sexta-feira. Não tive tempo para escrever aqui durante o evento, e agora é tarde para reportar tudo o que aconteceu, mas posso dizer que minha única reclamação séria é quanto a ele ter terminado tão cedo!

Tenho pouquíssima experiência com o CELSUL, pois só participei deste e do encontro anterior, em Pelotas, mas posso dizer que o evento vem melhorando a cada edição, como deve acontecer. A próxima será na UNISUL, em Palhoça (SC). Eu sempre desconfio de eventos acadêmicos próximos demais do litoral, mas vamos lá. Espero que a nova diretoria leve adiante os ganhos das anteriores; posso falar dos da atual, que eu vi de perto: organização em grupos temáticos, publicação rápida dos anais do evento, bom espaço para os trabalhos de iniciação científica, etc. Qualquer outra melhoria, claro, será bem-vinda.

Segue, em PDF, o pôster que expus no evento, com um título enorme: Um estudo sobre a relação entre palavra morfológica e palavra fonológica em vocábulos complexos do português brasileiro.

O desenvolvimento da linguagem

As etapas do desenvolvimento da linguagem nas galinhas de Doug Savage:

O desenvolvimento da linguagem

E é claro que, nos comentários ao cartum, alguém tinha que vir com a mesma bobagem de sempre: um professor reclamando que seus alunos adolescentes dizem shit (sh*t, porque as crianças estão vendo), mas não saberiam dizer a que classe gramatical essa palavra pertence. Conclusão da pessoa: palavrões, nos dias de hoje, desenvolvem-se antes da gramática...

Mudamos de área

Há algo errado na catalogação dos livros da Springer no SpringerLink. Alguns títulos têm aparecido indevidamente como pertencentes à série "Vertebrate Paleobiology and Paleoanthropology", formando combinações, no mínimo, estranhas. Não sei se é só com livros de Lingüística que isso tem acontecido, mas aí vão dois exemplos.

Erro na catalogação de Roots and Paterns


Formação de palavras no Pleistoceno:

Erro na catalogação do Handbook of Word-Formation

Sem Medo dos Constituintes

Uma das idéias mais importantes da Sintaxe - e da Lingüística de modo geral - é a noção de constituinte. Trata-se de unidades em que os elementos lingüísticos se agrupam. Essas unidades, por sua vez, agrupam-se em constituintes cada vez maiores, formando uma estrutura hierárquica.

Tomemos como exemplo a frase Meus alunos odeiam fazer suas tarefas. É claro que, na tela do computador, assim como na fala, essa frase apresenta uma estrutura linear bastante simples: meus precede alunos, alunos precede odeiam, e assim por diante. Entretanto, mesmo intuitivamente, podemos notar que as relações que se estabelecem entre cada uma dessas palavras não são idênticas, nem lineares. Por exemplo, meus parece estar mais fortemente relacionado a alunos do que a qualquer outra palavra da sentença; esses dois vocábulos parecem formar uma unidade. Contudo, essa relação não é simplesmente uma questão de precedência. Basta ver que alunos precede odeiam, mas esses elementos não formam uma unidade. A palavra alunos, sozinha, não se relaciona estruturalmente com o resto da frase, apenas com meus. É, antes, toda a unidade meus alunos que se relaciona com a seqüência que continua essa frase. Esse "resto da frase" também é estruturado em uma unidade. A seqüência meus alunos não se relaciona simplesmente com odeiam ou com qualquer outra palavra; ela se relaciona com toda a seqüência odeiam fazer suas tarefas. Trata-se dos dois grandes agrupamentos de palavras em que essa frase pode ser dividida inicialmente; não é a toa que essas duas grandes unidades tem seus próprios nomes - os bem conhecidos "sujeito" e "predicado".

Unidades como as que identificamos no parágrafo anterior são os constituintes da sentença. Tradicionalmente, eles são representados entre colchetes. Até agora, reconhecemos dois grandes constituintes em nosso exemplo; temos então a seguinte estrutura.

  • [[meus alunos] [odeiam fazer suas tarefas]]

Note que cada um dos constituintes está dentro de seu próprio par de colchetes. Além disso, a própria sentença como um todo está entre colchetes. Isso é intencional: a sentença é o constituinte maior, no qual todos os outros estão contidos.

Se dividimos toda essa sentença em constituintes cada vez menores, de acordo com as relações sintáticas que se estabelecem, chegamos à seguinte representação:

  • [ [[meus] [alunos]] [[odeiam] [[fazer] [[suas] [tarefas]]]] ]

Duas coisas são dignas de nota sobre essa representação. A primeira é o fato de que cada palavra está contida, sozinha, em um par de colchetes; isso representa o fato de que cada uma delas forma um constituinte. Como isso é geralmente pressuposto, é comum omitir os colchetes que circundam cada palavra. De fato, para muitos lingüistas, a palavra é o constituinte mais básico da sintaxe. A segunda coisa: colchetes não são nada práticos! Na medida em que as sentenças vão ficando maiores e mais complexas, fica cada vez mais fácil se confundir com eles. No exemplo acima, o problema não é tão grande, porque eu facilitei a vida dos leitores, manipulando o tamanho dos colchetes.

Uma solução para a falta de praticidade dos colchetes são as famosas árvores sintática. Trata-se de uma maneira muito mais elegante de se representar os constituintes e as relações hierárquicas que se estabelecem entre eles. A representação de colchetes acima pode ser traduzida na seguinte árvore.

Representação de 'Meus alunos odeiam fazer suas tarefas' em árvore sintática

Testes de constituência

Encontrar os constituintes de uma sentença não é um trabalho de adivinhação. Freqüentemente, a intuição de um analista nativo na língua em estudo funciona bem, mas há uma série de testes disponíveis para sanar as eventuais dúvidas e ajudar o lingüista a analisar uma sentença com precisão. Esses testes baseiam-se na própria idéia de constituinte: se estes funcionam como unidades na estrutura sintática, deve ser possível encontrar situações em que os elementos que formam um constituinte comportam-se como uma unidade.

Um teste simples é verificar se a seqüência de palavras que se quer testar pode, sozinha, ser a resposta a uma pergunta sobre o evento caracterizado na sentença. Se a resposta for negativa, a seqüência não é um constituinte; se for positiva, ela provavelmente o é. Usando novamente o exemplo Meus alunos odeiam fazer suas tarefas, podemos fazer uma série de perguntas, como:

  1. Quem odeia fazer suas tarefas?
  2. O que meus alunos odeiam?
  3. O que meus alunos odeiam fazer?

As respostas a elas são todas constituintes:

  1. Meus alunos.
  2. Fazer suas tarefas.
  3. Suas tarefas.

Agora, você não vai encontrar uma pergunta cuja resposta seja simplesmente "fazer suas", porque essas duas palavras não formam juntas um constituinte sintático.

Há muitos outros testes possíveis. Como a Sintaxe opera com constituintes, sempre que virmos uma operação sintática sendo realizada sobre um certo conjunto de palavras, podemos estar certos de que esse conjunto é um constituinte. Uma operação desse tipo é o movimento que nos permite dizer: Fazer suas tarefas é o que meus alunos odeiam. Ele mostra que fazer suas tarefas é um constituinte em nosso exemplo, pois esse conjunto de palavras pode ser movido como uma unidade.

Constituência e interpretação semântica

E aí vem o porquê dessa breve introdução à noção de constituinte. É que ontem vi no site da UFRGS a seguinte manchete Projeto Dirigir Sem Medo do Colégio de Aplicação. Minha primeira leitura foi, claro, a engraçadinha: um projeto que ajuda pessoas que sentem calafrios quando passam de carro pelo Colégio de Aplicação da UFRGS. É claro que não é isso: na verdade, o projeto é promovido pelo Colégio de Aplicação e é voltado para pessoas que têm medo de dirigir nos grandes centros urbanos.

Como está, a manchete é ambígua. Essa ambigüidade é facilmente resolvida por nosso conhecimento extralingüístico de que ninguém dirige com medo do Colégio de Aplicação (ao menos para quem sabe que colégio é esse, a interpretação é óbvia). Ainda assim, a ambigüidade existe. Ela se origina do fato de que mais de uma estrutura sintática é compatível com a seqüência de vocábulos Projeto Dirigir Sem Medo do Colégio de Aplicação. Seguem representações dessas alternativas.

  1. [[Projeto Dirigir Sem Medo] do Colégio de Aplicação]
  2. [Projeto Dirigir Sem [Medo do Colégio de Aplicação]]

A estrutura desses constituintes é mais complexa do que isso, mas omiti o máximo que pude, para mostrar apenas as relações que interessam nesse caso de ambigüidade.

O que há de importante a ser observado nas alternativas de estrutura acima é que, na primeira delas, a seqüência do Colégio de Aplicação está fora do constituinte que representa o nome do projeto, portanto não é parte deste. Nesse caso, essa seqüência não pode modificar apenas o elemento Medo, pois ele está inacessível a ela. Tudo o que essa seqüência enxerga é o constituinte Projeto Dirigir Sem Medo como um todo, e é ele que ela modifica.

Já na segunda opção de estrutura, do Colégio de Aplicação forma um constituinte com a palavra Medo. Esse constituinte, por sua vez, está contido no constituinte que representa o nome do projeto, portanto nossa seqüência agora faz parte desse nome. Como, nesse caso, o vocábulo "Medo" é vizinho da seqüência do Colégio de Aplicação, dentro do mesmo constituinte, ele está visível a ela e pode, portanto, ter seu sentido complementado pela seqüência. Agora sim, trata-se de um "medo do Colégio de Aplicação".

A interpretação pretendida pelos autores da notícia, claro, é a representada pela primeira estrutura. Se fosse na fala, a ambigüidade provavelmente não existiria, porque o falante teria feito uma pequena pausa após a palavra "Medo". Pausa esta que não existiria caso a interpretação pretendida fosse a segunda. Isso mostra que a estrutura sintática de uma sentença tem uma relação interessante com sua estrutura prosódica. No corpo do texto da notícia, a ambigüidade também é sanada, porque o autor utilizou uma vírgula no mesmo lugar.

Resumindo...

As palavras de uma sentença agrupam-se em constituintes hierarquicamente organizados. As especificidades desses agrupamentos e de sua organização determinam, em grande medida, as possíveis interpretações de uma sentença.

Novo site da Revista de Estudos da Linguagem

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O novo site da Revista de Estudos da Linguagem, da Faculdade de Letras da UFMG, está bonitinho.

A melhor parte é que todos os números publicados podem ser acessados gratuitamente. Como acontece com outras revistas de acesso livre, esta ainda mantém uma opção de assinatura impressa paga. Aposto que a disponibilização dos artigos para download não terá um impacto negativo na receita da revista. Ao contrário, a publicação ganha em visibilidade e importância.

Bananas

Felizmente, ainda não vi repercussão na imprensa brasileira de um novo estudo que tenta ignorar quase tudo o que há de interessante na linguagem humana para conferir competência lingüística a bonobos. Trata-se de "Aspects of Repetition in Bonobo-Human Conversation: Creating Cohesion in a Conversation Between Species", publicado no mês passado, na revista "Integrative Psychological and Behavioral Science", por Janni Pedersen e William M. Fields. Para dizer a verdade, o press release do Great Ape Trust of Iowa, centro de conservação e pesquisa de onde o trabalho saiu, é mais sem-noção do que o próprio estudo a que ele se refere.

Em resumo, o estudo de Pedersen e Fields aplica métodos da Análise da Conversa para estudar a interação entre Sue Savage-Rumbaugh e Panbanisha, uma bonobo do Great Ape Trust. No fim das contas, ela chega, torta e tortuosamente, à conclusão de que os bonobos desse lugar têm habilidades lingüísticas semelhantes às dos humanos, sendo capazes de conversar fluentemente com estes.

Já o press release afirma que as conclusões desse estudo contrariam a visão de lingüistas como Noam Chomsky, que afirmam que a faculdade da linguagem é um traço característico dos seres humanos. Besteira. Quando um lingüista dessa linha diz que a linguagem é específica à espécie humana, ele quer dizer que nenhuma outra espécie possui um sistema gramatical recursivo que permita o pareamento entre o som e o significado de um número infinito de sentenças. Mostrar que outros hominídeos podem ser treinados para utilizar um número limitado de símbolos, em situações que se assemelham às de interação entre seres humanos, não chega nem perto de falsear a hipótese chomskyana. Bons primatólogos que já tentaram coisas parecidas, como David Premack e Herbert S. Terrace, reconhecem hoje o inevitável fracasso da empreitada.

Para quem não tem acesso institucional à revista, o artigo de Janni Pedersen sai por 32 dólares, mas tudo bem, porque não vale a pena mesmo. A parte mais interessante já foi reproduzida e disponibilizadade por Mark Liberman, do Language Log; trata-se da transcrição da interação entre Savage-Rumbaugh e Panbanisha. Vale a pena dar uma olhada nessa transcrição para se ter uma idéia da bondade e do trabalho de interpretação necessários para que alguém diga que a bonobo está, de fato, conversando com a pesquisadora de maneira significativamente comparável ao modo como seres humanos conversam entre si. Bem, Janni Pedersen é uma dessas pessoas boazinhas que querem muito que outros hominídeos apresentem características da cognição humana, como a linguagem; então ela se esforça.

Além da transcrição, é possível ver o vídeo sobre o qual ela foi feita.

Um pouco sobre a análise de Pedersen

O contexto da interação é o seguinte: estão na floresta Panbanisha, um cão, Sue Savage-Rumbaugh e um homem chamado de Russ. A cena toda começa com Panbanisha perseguindo o cachorro, que foge assustado. Russ resolve a situação pegando o cachorro no colo. A transcrição começa aí, com Savage-Rumbagh e Panbanisha sentadas em um banquinho, interagindo em algo que os pesquisadores chamariam de "conversa". A poucos metros, Russ e o cachorro estão sentados em uma mesa.

A suposta conversa se dá por meio de um teclado eletrônico contendo lexigramas, isto é, símbolos que, para nós, representam palavras. Pouco tempo depois de uma tecla ter sido pressionada, uma gravação da palavra correspondente é executada pelo aparelho. No meio das sentenças dirigidas oralmente aos animais, algumas palavras são também assinaladas no teclado (na transcrição, as palavras "ditas" por meio do teclado estão em letras maiúsculas). Até aí tudo bem. Há tempos que se sabe fazer com que hominídeos espertos, loucos para ganhar recompensas, associem certos símbolos a certas situações do mundo - a parte das recompensas é bem importante.

As primeiras linhas da transcrição já dizem muito sobre o que está por vir:

1. PB: CARRY YES
2. SSR: you want Russ to carry you? ((quiet laughter)) instead of the dog. (1.0)
3. Panbanisha i’m going to tell you something (4.5)
4. Russ is going to CARRY the DOG because the DOG is SCARED of
5. PANBANISHA. the dog is scared of you.
6. (1.8)
7. PB: CARRY ((Panbanisha points to the lexigram on the keyboard))

Panbanisha começa apontando para os lexigramas CARRY e YES. É claro que não sabemos exatamente por que a bonobo disse isso. Pedersen simplesmente assume que Panbanisha queria ser carregada. A justificativa?

The response from SSR [Sue Savage-Rumbaugh: EQ] in line 2, as well as the further development of the conversation, indicates that the utterance functions as a request. (Pedersen e Fields, 2008:10)

Reparem na lógica da justificativa. Já que a pesquisadora assumiu que Panbanisha tenha feito um pedido e levou a interação adiante sob essa premissa, conclui-se que Panbanisha, de fato, fez um pedido! À parte a lógica torta, essa interpretação até é plausível, mas várias outras também o são: por exemplo, Panbanisha poderia estar simplesmente "descrevendo" o fato de que Russ, naquele momento, estava carregando o cachorro. Afinal, esses animais são treinados para identificar no teclado lexigramas correspondentes a objetos e eventos do mundo. A simples apresentação do teclado pela pesquisadora, pode ter sido suficiente para que Panbanisha se sentisse em situação de teste e fosse compelida a achar o lexigrama que pudesse lhe render uma banana.

Após cinco linhas de pausas e frases da pesquisadora, que tenta explicar a situação para Panbanisha, a bonobo simplesmente repete CARRY. Nas 32 linhas seguintes, Savage-Rumbaugh e Russ falam sobre a situação, até que Panbanisha repete YES CARRY:

36. Mocha just doesn’t wanna see you panbanisha (.) she wants you to (.)
37. Mocha wants you to (0.2) GO AWAY [that’s what Mocha wants you to do (.)
38. she wants you to]
39. PB: [YES CARRY]

O detalhe é que, como pode ser visto no trecho acima, esse "enunciado" de Panbanisha não tem nenhuma relação aparente com o que a pesquisadora vinha dizendo. Eu adoraria ver Pedersen tentando interpretar o que Panbanisha disse dessa vez, mas não me surpreendo nenhum pouco que ela não tenha feito isso. Parece que a bonobo não estava nem aí para a suposta conversa; queria era saber onde estavam as bananas!

Comentei apenas as primeiras linhas da transcrição, mas o resto não é muito diferente.

Bananas

Um vídeo com Kanzi, o bonobo mais esperto do Great Ape Trust, dá uma palhinha de como funcionam as coisas nesse tipo de pesquisa. No fim das contas, os animais não parecem estar fazendo muito mais do que truques para ganhar recompensas - sem querer, os pesquisadores acabam assemelhando-os mais a bichos de circo do que a seres humanos. É claro que esses feitos são interessantes, até surpreendentes. De fato, o estudo deles poderia revelar fatos interessantes sobre a cognição dos grandes primatas, mas nada sobre a linguagem humana, que é algo completamente diferente! A maior falha desses pesquisadores é tentar dar esse passo - grande demais.

Incidentalmente, um fato sobre a cognição dos primatas revelado pelos estudos do Great Ape Trust é que esses animais não são naturalmente preparados para aprender a "linguagem" que ensinam no laboratório. Para começar eles precisam de recompensas para fazer o que os pesquisadores querem; crianças humanas não precisam ganhar dinheiro (ou bananas) para adquirirem uma língua. Primatas precisam também de bastante treinamento, e, como geralmente acontece com habilidades aprendidas, nem todos os indivíduos conseguem alcançar um desempenho satisfatório. Muitos deles já participaram de pesquisas desse tipo, mas poucos viraram notícia - a mãe de Kanzi, por exemplo, não era tão esperta e foi um fracasso. Crianças humanas, contudo, adquirem uma língua de maneira mais ou menos uniforme, independentemente de seus níveis de inteligência e sem a necessidade de treinamento específico - no caso de habilidades aprendidas, como calcular equações de segundo grau, elas demonstram alta variabilidade de desempenho, assim como primatas em relação a pseudo-línguas de laboratório.

Para terminar, uma frase de Herbert S. Terrace:

If a child did exactly what the best chimpanzee did, the child would be thought of as disturbed.

VIII Encontro do CELSUL

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Ainda há tempo para os atrasados se inscreverem no próximo Encontro do Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul. Desta vez o evento acontecerá em casa, na UFRGS (no Campus do Centro), entre os dias 29 e 31 de outubro. A programação e outras informações podem ser consultadas no site do evento.

Eu vou estar lá nas sessões de pôsteres e na cobertura do resto do encontro.

E vieram os bélgicos

Aí vai um post que ficou guardado, esperando este blog ser lançado. O chato é que as olimpíadas de Pequim acabaram e o assunto ficou com cara de velho.

O caso é que no Bronze Brasil 2008, que, diga-se de passagem, teve a melhor cobertura dessas olimpíadas, fez-se o seguinte comentário após a derrota da seleção brasileira de futebol na semifinal contra a Argentina.

Como disse Walter Casagrande na copa de 2002: “que venham os bélgicos”.

É interessante notar que ninguém sabe ao certo - mas todo mundo acha que sabe - quem disse isso pela primeira vez. Nos comentários ao post, teve gente negando que tenha sido Walter Casagrande e gente garantindo que a frase foi criação de Roberto Rivellino. Já em outro site, no texto "Puta Trampo - O Manifesto", César Albiero atribui a frase a Dadá Maravilha e ensaia uma explicação baseada no que ele chama de "filosofia do Puta Trampo".

Pq serah q ele falou bélgicos? Pq eh puta trampo conhecer todas as nacionalidades, nao eh msm? Portanto, depois dos bélgicos vieram os turqueses, os alemanhos e assim foi...

Não deixa de ser um jeito de explicar o que aconteceu: no desconhecimento do gentílico adequado, a morfologia da língua entra em ação e gera uma alternativa. Uma explicação mais séria teria que levar em conta o fato de que esse tipo de "erro" ocorre mesmo quando o falante tem conhecimento de qual é a palavra comumente utilizada no contexto em questão.

Acontece que o acesso aos itens de nosso léxico mental não é cem por cento confiável em todos os momentos. Quando ele não ocorre como esperado, isto é, quando um item lexical não é recuperado da memória em tempo, as regras morfológicas da língua geralmente operam para gerar um substituto. De que modo, precisamente, esse processo se dá na fala espontânea é objeto de debate entre modelos teóricos que tentam explicar como funciona o acesso aos itens lexicais na produção de enunciados (Stemberger (1998) traz uma visão geral de algumas das questões envolvidas).

Não é muito surpreendente ver esse tipo de "erro" acontecer no caso dos viventes da Bélgica, afinal, belga não é uma palavra muito comum na fala da maioria das pessoas, e a freqüência de um item lexical influencia a probabilidade de ele ser corretamente recuperado da memória. Não é necessário, então, desconhecer esta palavra para dizer a outra, bélgico. E é bem possível que todos os três, Casagrande, Rivellino e Dadá Maravilha, tenham feito isso, e outras pessoas também, possivelmente em situações em que estivessem sendo submetidas a algum tipo de estresse (diante de uma câmera de TV, por exemplo).

Nada disso seria motivo de piada se as pessoas tivessem o trabalho de ir a um bom dicionário e ver que bélgico está lá registrado (assim como turquês).

"Adendo" ou "Probleminha de Morfologia"

Mais intrigante do que o fato de esse "erro" ter ocorrido, é a estrutura morfológica do seu resultado, bélgico, que se parece com a de gentílicos como soviético e tessalônico. Há outros gentílicos formados por -ico, como babilônico, irânico, macedônico, mediterrânico e mesopotâmico, mas estes são diferentes, porque podem ser mais facilmente analisados como <NOME DO LUGAR> + ico. Já nos casos de bélgico, soviético e tessalônico, as palavras base, ao menos semanticamente, são Bélgica, (União) Soviética e Tessalônica, de modo que não basta apenas adicionar o sufixo -ico para formar os respectivos gentílicos (ex. *belgicaico). Ou a base não é simplesmente o nome do lugar, ou o sufixo não é toda a seqüência fonológica -ico, ou alguma operação morfofonológica, como haplologia, está em jogo.



Stemberger, Joseph Paul (1998) Morphology in language production with special reference to connectionism. In: Andrew Spencer & Arnold M. Zwicky (eds.) The Handbook of Morphology, pp. 428-451. Oxford: Blackwell.

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ReVEL - Psicolingüística

A mais nova edição da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL está no ar já faz algumas semanas, com vários artigos sobre Psicolingüística, além de entrevistas com Gary Marcus e Leonor Scliar-Cabral.

Olhos para a próxima edição, que será sobre Morfologia! A revista estará recebendo artigos sobre esse tema até o dia 5 de dezembro.

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